Eurico de Barros

Eurico de Barros

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Os filmes que ganharam mais Óscares (e onde os ver)

Os filmes que ganharam mais Óscares (e onde os ver)

Ben-Hur, Titanic e a terceira parte da trilogia O Senhor dos Anéis lideram a lista dos filmes com mais estatuetas douradas na história dos Óscares, cada um com 11 prémios. A versão de 1961 de West Side Story – Amor sem Barreiras, distinguida com dez, é outro dos filmes em destaque. Apesar de hoje em dia a Academia optar por dividir os prémios por várias produções –, existem títulos que, teoricamente, podem ultrapassar o recorde em 2026. Pecadores fez história ao tornar-se o filme com mais nomeações de sempre (16). O que não quer dizer nada: nem sempre os filmes com mais nomeações são os que saem da cerimónia com mais prémios. Outros filmes com oportunidade para entrar neste top incluem Batalha Atrás de Batalha (13 nomeações), Frankenstein, Marty Supreme e Valor Sentimental (todos com nove). Recomendado: Todos os filmes com nomeações aos Óscares que pode ver em casa
Os filmes em cartaz esta semana, de ‘Valor Sentimental’ a ‘Socorro!’

Os filmes em cartaz esta semana, de ‘Valor Sentimental’ a ‘Socorro!’

Tanto cinema, tão pouco tempo. Há filmes em cartaz para todos os gostos e de todos os feitios. Das estreias em cinema aos títulos que, semana após semana, continuam a fazer carreira nas salas. O que encontra abaixo é uma selecção dos filmes que pode ver no escurinho do cinema, que isto não dá para tudo. Há que fazer escolhas e assumi-las (coisa que fazemos, com mais profundidade nas críticas que pode ler mais abaixo nesta lista). Nas semanas em que há estreias importantes de longas-metragens no streaming, também é aqui que as encontra. Bons filmes. Recomendado: Os melhores filmes de 2025
As estreias de cinema para ver em Fevereiro, de ‘Hamnet’ a ‘O Filho do Carpinteiro’

As estreias de cinema para ver em Fevereiro, de ‘Hamnet’ a ‘O Filho do Carpinteiro’

Com os Óscares no horizonte, o apetite pela sala de cinema aumenta sempre. Para alimentar essa vontade de consumo cinéfilo, damos-lhe as principais estreias de filmes para ver em Fevereiro. Escolhemos oito. E três chegam a Portugal com nomeações aos Óscares a acompanhar. O destaque vai para Hamnet, que amealhou oito nomeações às estatuetas douradas de Hollywood, incluindo a de melhor filme. Também se apresentam no grande ecrã The Voice of Hind Rajab, produção tunisina de alma e coração em Gaza; e Se Eu Tivesse Pernas Dava-te um Pontapé, que já valeu a Rose Byrne um prémio na Berlinale e outro nos Globos de Ouro. O mês é pequeno, mas tem grandes estreias. Não as deixe escapar. Recomendado: As séries a não perder em Fevereiro
Os 26 filmes que nos vão levar ao cinema este ano

Os 26 filmes que nos vão levar ao cinema este ano

A televisão foi a primeira grande culpada. Depois vieram os clubes de vídeo, os VHS e os DVD, a pirataria na internet. Agora é o streaming. Há mais de 60 anos que a queda no número de espectadores nas salas de cinema gera preocupações, dilemas e estratégias para a combater. Nem todas funcionam. Por cá, propomos a única solução ao nosso alcance: sugerir bons filmes. Pelo menos, filmes que queremos ver. Até ao final do ano, haverá muito mais, mas destacamos 26 longas-metragens que chegam aos cinemas em 2026. Do cinema independente aos grandes blockbusters, há espaço para todos. Estas são as estreias de cinema a não perder. Recomendado: Os melhores filmes de 2025
As estreias de cinema para ver em Janeiro, de ‘A Criada’ a ‘Valor Sentimental’

As estreias de cinema para ver em Janeiro, de ‘A Criada’ a ‘Valor Sentimental’

Janeiro abre 2026 com muitas mulheres no cinema: Sydney Sweeney e Amanda Seyfried dão o tiro de partida logo no dia 1, e a 22 estreia-se o primeiro filme realizado por Kristen Stewart. Pelo meio, Jennifer Lawrence, Cate Blanchett (no filme com que Jim Jarmusch venceu Veneza) e Kate Hudson são co-protagonistas dos respectivos filmes, Nia DaCosta realiza o terceiro filme de 28 Anos Depois (substituindo Danny Boyle), e a jovem Baneen Ahmad Nayyef interpreta uma criança que, nos anos 1990, é escolhida para fazer o bolo de aniversário de Saddam Hussein (na corrida aos Óscares). O último dos oito filmes que queremos ver em Janeiro é Valor Sentimental, de Joachim Trier (Grande Prémio do Festival de Cannes 2024). Recomendado: As melhores séries para ver em Janeiro
Os piores e mais estranhos filmes com o Pai Natal

Os piores e mais estranhos filmes com o Pai Natal

Toda a gente conhece filmes de Natal clássicos e reconfortantes, com o Pai Natal no papel de herói. Esta lista vai noutra direcção: reúne alguns dos piores e mais estranhos filmes alguma vez feitos com o bom velhinho no centro da acção. Produções falhadas, ideias absurdas e execuções desastrosas que, em muitos casos, acabaram por ganhar estatuto de culto precisamente por serem tão más. Há demónios, marcianos, wrestlers, fadas, canções embaraçosas e muita falta de noção. Para os mais curiosos, há ainda uma boa notícia: a maioria destes filmes pode ser vista gratuitamente no YouTube. Recomendado: Os melhores filmes de Natal para ver em família
Os melhores filmes animados de Natal

Os melhores filmes animados de Natal

Entre clássicos intemporais e produções mais recentes, estes filmes de Natal atravessam décadas, estilos e tecnologias, mas partilham o mesmo objectivo: celebrar o espírito da quadra através da animação. Há espaço para a melancolia suave de Feliz Natal, Charlie Brown, para a sátira moral de How the Grinch Stole Christmas, ou para adaptações incontornáveis de Dickens com personagens da Disney. Ao mesmo tempo, surgem propostas contemporâneas como Arthur Christmas ou Klaus. Seja com humor, música ou fantasia, esta selecção reúne filmes que continuam a marcar gerações e a confirmar que o Natal ainda conta com muita animação. Recomendado: Os melhores filmes de Natal para ver em família
Os melhores filmes de 2025

Os melhores filmes de 2025

É tempo de balanço. Antes de dirigirmos toda a nossa devoção para os doces de Natal, está na altura de cumprir outro ritual: quais foram os melhores filmes deste ano? Para isso, fomos vasculhar as estreias de cinema a que Portugal assistiu em 2025 e escolhemos os filmes que mais se destacaram. Entre longas-metragens vindas do Irão, da China, da Roménia ou de França, de realizadores consagrados e de estreantes, nos géneros mais variados, do terror ao romance, da animação ao suspense, eis os melhores filmes de 2025 (quatro dos quais já estão no streaming). Recomendado: Os melhores filmes de 2024
Farto de paz e amor? 18 filmes para quem não gosta do Natal

Farto de paz e amor? 18 filmes para quem não gosta do Natal

É alérgico à quadra natalícia? Ou pelo menos aos filmes bem-comportadinhos que tomam a televisão de assalto na quadra natalícia? Tem aqui um bom remédio em forma de lista. São 18 filmes de Natal inconvencionais, desde o clássico e premiado O Apartamento a projectos que misturam terror e comédia negra, como são os casos de Rare Exports e Gremlins, ou o terror puro e duro de Krampus: O Lado Negro do Natal. Há muito para ver. Tenha só atenção a um detalhe: nem todos são recomendados para ver em família. Recomendado: Guia para o melhor do Natal em Lisboa
As estreias de cinema para ver em Dezembro: ‘Justa’, ‘Nouvelle Vague’ e muito mais

As estreias de cinema para ver em Dezembro: ‘Justa’, ‘Nouvelle Vague’ e muito mais

Dezembro é um mês difícil. São as compras de Natal, os jantares de grupo, a preparação de escapadinhas para passagem de ano... é muito coisa. Mas se há tradição que se vem cimentando ao longo de décadas é a de aproveitar o frio, as férias, as visitas dos amigos, para passar umas horinhas no conforto e na paz do cinema. Nunca faltam estreias – e por isso mesmo é preciso que alguém ajude a separar o trigo do joio. E é para isso que cá estamos. Abaixo, encontra os oito filmes que merecem que pague bilhete para os ver em sala. Boas sessões! Recomendado: O melhor do cinema alternativo em Lisboa
Sete filmes a ter debaixo de olho no LEFFEST 2025

Sete filmes a ter debaixo de olho no LEFFEST 2025

Os cinemas São Jorge, Nimas e NOS Amoreiras, a Culturgest, o Teatro do Bairro e a Galeria ZDB, em Lisboa, e os Recreios da Amadora e o Cineteatro D. João V, na Amadora, recebem, entre 7 e 16 de Novembro, a 19.ª edição do LEFFEST – Lisboa Film Festival, que mais uma vez, e fiel à sua filosofia, combina o cinema com as outras artes. No primeiro caso, e além das habituais secções, destacam-se este ano uma retrospectiva do realizador norte-americano Hal Hartley, um dos expoentes do cinema independente dos EUA, autor de títulos como Homens Simples, Amador ou Henry Fool; homenagens ao cineasta mexicano Arturo Ripstein, que inclui uma série de filmes inéditos em Portugal, às actrizes Isabel Ruth e Miranda Richardson, e aos actores Wagner Moura e Simon McBurney; e ainda à recentemente falecida Marisa Paredes e ao compositor Arvo Pärt, pelo seu 90.º aniversário; ou uma mostra de cinema de países da Ásia Central, como o Uzbequistão e o Tajiquistão. No segundo, e entre vários outros eventos, o LEFFEST 2025 apresentará um cine-concerto com dois filmes de Charlot, O Emigrante e O Peregrino, uma Noite Síria, uma masterclass da actriz palestiniana Hiam Abbass, uma Noite de Fado com Catarina Wallenstein e seus amigos, e concertos, exposições, dança, projecções especiais e conversas entre os convidados do festival. Escolhemos sete filmes a ter especialmente em conta, assinados por nomes como Richard Linklater, Edgar Reitz, Jim Jarmusch ou João Botelho, ambientados em várias épocas e países. O
As estreias de cinema para ver em Novembro, de ‘O Agente Secreto’ a ‘Wicked: Pelo Bem’

As estreias de cinema para ver em Novembro, de ‘O Agente Secreto’ a ‘Wicked: Pelo Bem’

Novembro chega às salas com uma variedade de mundos e estilos: dos dilemas morais de Costa-Gavras à ditadura brasileira revisitada por Kleber Mendonça Filho, e com Wagner Moura. A ficção científica regressa em força com Predador: Badlands e o remake The Running Man, com Glen Powell. Há um novo Panahi clandestino, um filme de época (Viúva Clicquot) e uma fantasia celestial com Keanu Reeves. As superproduções continuam com Wicked: Pelo Bem, enquanto Anniversary – Mudança Radical e Urchin encerram o mês com inquietações familiares. Nas estreias de cinema para ver em Novembro, há filmes para todos os gostos. Recomendado: Os melhores filmes de 2025 até agora

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Marty Supreme

Marty Supreme

3 out of 5 stars
Timothée Chalamet ganhou o Globo de Ouro de Melhor Actor num Filme Dramático pela sua interpretação de Marty Mauser, um jovem tenista de mesa egocêntrico, ambicioso, ultra-manipulador e capaz de tudo (até mesmo de se humilhar publicamente) para chegar à fama e à fortuna, nesta segunda realização de Josh Safdie, e primeira sem a participação do seu irmão Benny, de quem se autonomizou em 2024. O filme, nomeado para nove Óscares passa-se na Nova Iorque de 1952 e conta também com interpretações de Gwyneth Paltrow, Kevin O’Leary (sim, o empresário milionário do programa Shark Tank, no papel de… um empresário rico e implacável), Abel Ferrara, Fran Drescher e Odessa A’Zion, e se há uma coisa de que Marty Supreme não pode ser acusado, é de não ter enredo: tem, e para dar e vender. De tal forma, que sofre de overplotting, por vezes há demasiadas coisas a acontecer ao mesmo tempo ao protagonista (inspirado numa figura real do mundo do ténis de mesa dos EUA, e da Nova Iorque popular) e a fita, tão frenética como Marty, ameaça tombar na inverosimilhança e transformar-se num desenho animado em ambiente realista. Mas Safdie lá consegue que a vertigem visual e a aceleração narrativa não causem um descarrilamento de credibilidade, e Chalamet, que treinou longo tempo para não ser dobrado por um profissional nas sequências de jogos de ténis de mesa, mergulha tão profundamente na personagem de Marty, que se some nela. Podemos sair exaustos de Marty Supreme, mas nunca indiferentes, gostemos ou n
O Bolo do Presidente

O Bolo do Presidente

3 out of 5 stars
Iraque, anos 90. O país está a sofrer as consequências de ter invadido o Kuwait pouco tempo antes. É o dia em que as escolas de todo o país seleccionam os alunos que vão contribuir para o aniversário do presidente Saddam Hussein. Lamia tem nove anos e a avó ensina-lhe como evitar que seja escolhida para fazer o bolo de anos daquele. Mas o seu severo professor nomeia-a para a tarefa. E Lamia sabe que, se falhar, poderá ser severamente punida. Esta fita de Hasan Hadi ganhou a Caméra D’Or no Festival de Cannes e representa o Iraque na selecção à nomeação ao Óscar de Melhor Filme Internacional. Apesar de algumas ingenuidades e facilidades para agradar ao público internacional, e em especial ao ocidental, Hasan Hadi mostra, através da aventura vivida por Lamia e pelo seu amigo e colega Saeed, quando procuram encontrar e comprar os ingredientes para o bolo numa cidade em agitação patriótica e cheia de perigos, o culto da personalidade, as arbitrariedades e os absurdos do regime ditatorial de Saddam Hussein.
Song Sung Blue

Song Sung Blue

4 out of 5 stars
Mike (Hugh Jackman) e Claire Sardina (Kate Hudson) vivem em Milwaukee, são casados, admiradores incondicionais de Neil Diamond e formam um duo musical chamado Lightning and Thunder, em que homenageiam o seu cantor favorito. Ao longo do seu percurso artístico, Mike e Claire vão conhecer um grande e entusiasmante sucesso à sua escala, mas passar também por momentos difíceis e dolorosos. Craig Brewer baseou-se no premiado documentário homónimo de 2008 de Greg Kohs (que pode ser visto no YouTube) para realizar esta história de gente comum que vive na América profunda e trabalha numa subcultura desconhecida do meio do espectáculo dos EUA – os imitadores de grandes nomes da música – para pagar as contas e espalhar alegria pelos fãs, ao mesmo tempo que homenageia aqueles que admira sincera e apaixonadamente. Brewer é fidelíssimo à história real dos Sardina, prime todos os botões certos do melodrama sem nunca exagerar no tom, no volume ou no efeito lacrimejante, e Hugh Jackman e Kate Hudson (que está cada vez mais parecida com a mãe, Goldie Hawn) são portentosos a interpretar Mike e Claire, a cantarem e dançarem, e a transmitirem toda a felicidade que o casal sentia e irradiava em palco. Incrivelmente, os Globos de Ouro ignoraram Jackman nas nomeações e Hudson, que foi nomeada, perdeu o prémio para outra actriz. Se algo semelhante acontecer nos Óscares, será escandaloso.
Kontinental ’25

Kontinental ’25

3 out of 5 stars
A nova fita do romeno Radu Jude passa-se na cidade de Cluj, onde Orsolya (Eszter Tompa) uma oficial de justiça encarregue de fazer despejos, fica profundamente afectada pelo suicídio de um homem que ia retirar da cave de um prédio antigo, destinado a ser transformado num hotel de luxo. Ela abdica de ir de férias com o marido e os filhos e fica a remoer o sentimento de culpa, partilhando-o com uma série de pessoas, incluindo uma das suas colegas e melhores amigas, um antigo aluno de Direito que encontra por acaso e só arranjou emprego a fazer entregas de moto, e um padre. Através desta angustiada personagem, Jude mostra como as grandes cidades da Roménia são também vítimas da especulação imobiliária desenfreada, expõe os defeitos crónicos e a corrupção da sociedade romena e as tensões históricas ainda hoje existentes (e parece que cada vez mais exacerbadas) entre romenos e húngaros (a protagonista e a mãe são ambas húngaras), e ironiza sobre a má consciência social da classe média a que Orsolya pertence. Kontinental’25 é o melhor filme de Jude até à data, e aguardamos com curiosidade o seu (parece que muito heterodoxo) Drácula. 
Nouvelle Vague

Nouvelle Vague

4 out of 5 stars
A génese e os bastidores da rodagem de O Acossado, primeira longa-metragem de Jean-Luc Godard e um filme-farol da Nova Vaga francesa, bem como a Paris do início dos anos 60 e o ambiente que se vivia entre uma nova, criativa e arrojada geração de realizadores e de actores que iam definir e marcar o cinema, em França e internacionalmente, são aqui recriados por Richard Linklater a preto e branco, até ao mais ínfimo pormenor e com uma vivacidade e um regozijo que replicam de alguma forma os das filmagens originais. É o próprio espírito da Nouvelle Vague que Linklater quer aqui convocar, mais do que apenas lembrá-la e celebrá-la. Interpretado por um grupo de actores que evocam na perfeição as pessoas a que dão corpo, sem as imitarem ou fazerem de clones delas (Guillaume Marbeck, Aubry Dulin e Zoey Deutsch são formidáveis, respectivamente, como Godard, Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg), Nouvelle Vague é um gesto de nostalgia, uma homenagem, um elogio e um preito de gratidão a uma época, uma geração e um movimento cinematográfico. E assinado por um realizador americano e não francês…
Onde Aterrar

Onde Aterrar

4 out of 5 stars
Hal Hartley não fazia um filme deste Ned Rifle, de 2014, e este Onde Aterrar é uma fina, espirituosa e económica comédia de equívocos nova-iorquina, em que Bill Sage interpreta Joe Fulton, um famoso realizador de comédias românticas que está semi-reformado e decide ir trabalhar no cemitério da igreja próxima de sua casa, para dar ocupação às mãos ao ar livre, bem como fazer o testamento. A namorada, os familiares e os amigos julgam então que ele vai morrer, e a confusão instala-se. Em apenas 75 minutos, com uma câmara digital e meios exíguos (parte da fita foi rodada na sua casa em Nova Iorque), sentido de humor e veia irónica, e recorrendo a actores velhos conhecidos da sua filmografia, Hartley, uma das lendas do cinema independente dos EUA, diz mais, e de forma despretensiosa, sobre o sentido da existência, a morte, a religião, as perspectivas de futuro da humanidade e do cinema (irá tudo parar à Netflix?) e as peculiaridades das relações familiares e sentimentais, do que outros cineastas em duas horas ou mais (até ficamos a saber a melhor e mais rápida forma de tirar sacos de plástico presos nos ramos das árvores). Não se esquecendo de gozar com uma certa elite bem-pensante urbana americana, com os autores de livros “sérios” e presunçosos sobre figuras do cinema como ele, e com a omnipresença das séries de televisão para as plataformas de streaming.
Relay

Relay

3 out of 5 stars
David Mackenzie, autor de Hell or High Water – Custe o que Custar, realiza este thriller passado em Nova Iorque. Riz Ahmed interpreta um homem que ganha muito bem a vida a mediar, ilegalmente, acordos entre empresas corruptas e ex-empregados destas que ficaram com documentos comprometedores, sem ter qualquer contacto pessoal entre as duas partes. Um dia, quebra as rigorosas regras por que se rege e envolve-se com uma cliente (Lily James), que está desesperada para devolver o material que subtraiu à empresa que a despediu, por medo de sofrer represálias. Relay é um tenso, expedito e original filme policial que consegue trocar as voltas às expectativas do espectador, e em cujo enredo os correios tradicionais e a tecnologia analógica desempenham um papel fundamental.
O Último Suspiro

O Último Suspiro

3 out of 5 stars
O veterano cineasta grego Costa-Gavras, autor de Z – A Orgia do Poder ou A Confissão, há muito radicado em França, e hoje com 92 anos, aborda, em O Último Suspiro, os temas do fim da vida, dos cuidados paliativos e da eutanásia através de duas personagens: o filósofo Fabrice Toussaint (Denys Podalydès), que poderá ter uma doença grave, e um médico, o Dr. Augustin Masset (Kad Merad), que dirige uma unidade de cuidados paliativos. Postos perante as várias situações de doentes com cancro que o clínico recebeu nas suas instalações, este e o filósofo – e Costa-Gavras com eles –, reflectem sobre a morte, a dignidade no ocaso da vida e os cuidados paliativos. Baseado num livro escrito por Régis Debray e pelo médico Claude Grange, O Último Suspiro não escapa a algum didactismo, mas cala bastante fundo na maior parte da hora e meia que dura.
Good Boy – Fiel Até à Morte

Good Boy – Fiel Até à Morte

3 out of 5 stars
Ben Leonberg levou três anos a rodar esta longa-metragem de estreia em que dirige o seu próprio cão, Indy. O dono do animal está gravemente doente e muda-se para a casa que o avô lhe deixou e à irmã, isolada e perto de um bosque. O cão percebe então que a casa é assombrada por uma entidade sobrenatural malévola, que ameaça o dono, e vai fazer tudo para o proteger. Good Boy – Fiel Até à Morte é contado do ponto de vista de Indy, num tour de force cinematográfico de Leonberg, que apesar de ter um orçamento microscópico assina aqui, e em bem menos de hora e meia, um filme de terror original, subtilmente incómodo e arrepiante, sem efeitos especiais de encher a vista, excessos sanguinolentos nem sustos estereotipados, que assenta na relação de fidelidade de um cãozinho corajoso e dedicado para com o seu dono, que o leva mesmo a enfrentar forças malignas mais poderosas que ele e o vão tentar matar. Através dele, o realizador recorda também os laços milenares que existem entre homem e cão.
Gato Fantasma Anzu

Gato Fantasma Anzu

3 out of 5 stars
Filme de animação dos japoneses Nobuhiro Yamashita e Yoko Kuno, com co-produção francesa. Karin, uma adolescente precoce e órfã de mãe, é posta pelo seu irresponsável pai a viver com o avô, um sacerdote budista, no templo de que este cuida. É aí que conhece o enorme e afanoso Anzu, um gato fantasma imortal que tem um telemóvel pendurado ao pescoço, anda de moto e dá massagens terapêuticas aos locais, com o qual começa por embirrar solenemente. Baseado numa manga, Gato Fantasma Anzu não pode ser comparado com os filmes dos Estúdios Ghibli e de Hayao Miyazaki, mas o seu sentido de humor insólito e surreal, a delirante galeria de personagens saídas da mitologia nipónica e da sua tradição de histórias fantásticas e sobrenaturais, as desconcertantes peripécias do enredo, que levam Karin e Anzu ao Reino dos Mortos e a ser perseguidos por demónios, e a animação tradicional, parte dela feita sobre imagens reais com actores, satisfazem plenamente.
Depois da Caçada

Depois da Caçada

3 out of 5 stars
A nova fita de Luca Guadagnino, o realizador de Chama-me pelo Teu Nome e Challengers, tem Julia Roberts no papel de uma professora de Filosofia da Universidade de Yale, que vê a sua integridade e a sua carreira postas em causa, quando uma estudante sua favorita acusa um docente mais novo, e que é um dos seus melhores amigos, de violação. À medida que o caso ganha amplitude e se torna público, e a aluna a envolve nele, ela é forçada a confrontar um segredo traumatizante de juventude, que nunca revelou nem ao marido, os limites da sua responsabilidade pessoal e institucional, e a sua consciência. Também com Andrew Garfield, Chloë Sevigny, Michael Stuhlbarg e Ayo Edebiri. Através desta história, Guadagnino questiona os fundamentalismos ideológicos, o fanatismo woke e a “cultura do cancelamento” que assolam as universidades dos EUA, assim como o movimento #MeToo, ao mesmo tempo que retrata duas mulheres, a professora de Julia Roberts, e a aluna de Ayo Edebiri, que de uma relação harmónica passam a uma relação de confronto, reveladora das verdadeiras naturezas de cada uma.
Mr. Burton

Mr. Burton

3 out of 5 stars
Harry Lawley interpreta um jovem Richard Burton (então ainda Richard Jenkins), a viver na cidade galesa de Port Talbot, durante a II Guerra Mundial, e preso entre as pressões de uma família com vários problemas, com destaque para o pai alcoólico e indiferente, o devastador conflito e as suas ambições de ser actor. O seu talento em bruto é então reconhecido por um professor, Philip Burton (Toby Jones), que o vai orientar e acabar por se tornar no seu pai adoptivo. Burton assumiu o apelido de Philip, e dele disse mais tarde: “Devo-lhe tudo”. Marc Evans realiza este filme em que os louros vão todos para os actores. Toby Jones é um digno e dedicado Philip, que oculta de todos a sua homossexualidade e projecta no promissor pupilo, um talento em bruto, os seus sonhos teatrais frustrados, Harry Lawley convence no jovem Richard Burton e até lhe apanha o rico e denso tom de voz e os maneirismos, e a sempre excelente Lesley Manville faz a afectuosa e compreensiva Ma, a senhoria de Philip Burton e sua melhor amiga.

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‘Hamnet’: a tragédia do filho de William Shakespeare

‘Hamnet’: a tragédia do filho de William Shakespeare

Não faltam séries e filmes sobre William Shakespeare, muito menos obras de ficção sobre ele e a sua existência. No seu livro Hamnet, publicado em 2020, a escritora britânica Maggie O’Farrell escolheu um ponto de vista diferente para falar dele, da mulher e da sua vida familiar. Hamnet centra-se no casamento entre o dramaturgo e a sua mulher Agnes (ou Anne), e também no filho de ambos, Hamnet, que morreu quando tinha apenas 11 anos, pensa-se que vítima de peste bubónica, e que terá influenciado a escrita de uma das peças subsequentes de Shakespeare, e uma das mais celebradas, Hamlet. O’Farrell disse numa entrevista que sempre tinha estranhado “as raras menções a Hamnet nas biografias e nos estudos literários”, tendo por isso “decidido escrever um romance sobre ele, para lhe tentar dar uma voz e uma presença”. O livro dá assim mais destaque à figura de Hamnet, bem como à da sua mãe, dramatizando a doença do rapaz e o seu impacto sobre a família Shakespeare, bem como as consequências emocionais e psicológicas da sua morte sobre William e Agnes. Maggie O’Farrell combinou factos e ficção sobre a vida de William Shakespeare e a época histórica em que ele e a sua família viveram, e especula ainda sobre as causas da morte de Hamnet, bem como sobre a forma como esta tragédia poderá estar directamente ligada à criação de Hamlet. A obra já vendeu mais de dois milhões de exemplares e foi traduzida em 40 línguas, tendo ganhado, entre outros, o Women’s Prize for Fiction no Reino Unido, e o
‘Valor Sentimental’: uma família em crise numa casa centenária

‘Valor Sentimental’: uma família em crise numa casa centenária

Grande Prémio do Festival de Cannes, Globo de Ouro de Melhor Actor Secundário (para Stellan Skarsgard), seis Prémios do Cinema Europeu (incluindo Melhor Filme e Realizador) e nove nomeações para os Óscares. Este é o (bom) lastro de galardões e indicações com que Valor Sentimental, do norueguês Joachim Trier, chega aos cinemas portugueses (ganhou muitos outros até agora, mas estes são os mais destacados). O filme consta também na lista dos Melhores de 2025, de críticos de publicações como The Hollywood Reporter, Indiewire, Variety, Slate ou The Washington Post, ou ainda da BBC, só para citar títulos e meios de língua inglesa. Autor da chamada “Trilogia de Oslo”, composta pelos filmes Reprise (2006, este a sua longa-metragem de estreia), Oslo, 31 de Agosto (2011) e A Pior Pessoa do Mundo (2021, e que revelou a actriz Renate Reinsve), Trier consolida-se assim como o nome mais destacado, e internacionalmente considerado e premiado, de um cinema norueguês que tem vindo a dar nas vistas nos últimos anos, pela qualidade e pela variedade da sua produção. Que vai desde filmes de ambiente contemporâneo como os do autor de Valor Sentimental, ou de Dag Johan Haugerud (realizador da trilogia Sex, Love e Dreams, este último vencedor do Festival de Berlim) até títulos biográficos, fantásticos, policiais ou históricos, passados, por exemplo, durante a II Guerra Mundial (e isto sem falar nas séries de televisão). No país, fala-se de uma “idade de ouro” do cinema norueguês, que agora pede meça
‘O Bolo do Presidente’: a menina, o galo e o aniversário de Saddam Hussein

‘O Bolo do Presidente’: a menina, o galo e o aniversário de Saddam Hussein

Quando Saddam Hussein governava o Iraque, as escolas (e não só) tinham que fazer bolos comemorativos do seu aniversário. O Bolo do Presidente, primeiro filme de Hasan Hadi, passa-se nos anos 90, após o Iraque ter invadido o Kuwait, e baseia-se em recordações de juventude do realizador, que ensina cinema nos EUA. O aniversário de Saddam aproxima-se e a pequena Lamia, de nove anos, uma órfã que vive com a avó, Bibi, no interior do país, foi escolhida pelo professor para confeccionar o bolo com o qual a sua turma vai assinalar os anos do ditador (entre outras, é também preciso fazer uma oferta de fruta, que fica a cargo do colega e amigo daquela, Saeed, cujo pai é mendigo e para o qual o rapaz rouba carteiras quando não está na escola). Lamia incorre num severo castigo se não conseguir fazer o bolo, ou se este não estiver a gosto do professor. E fazer um bolo é muito difícil para ela, porque a avó é pobre de pedir e porque o Iraque está a sofrer sanções dos EUA e de outros países ocidentais por causa da sua agressão ao Kuwait, e faltam muitos bens essenciais (que são caríssimos se forem procurados no mercado negro, onde vão aparecendo). A menina elabora uma lista de todos os ingredientes necessários ao bolo, e quando a avó pega nela, e no seu galo de estimação, Hindi, para irem à cidade, ela pensa que vão fazer compras para a confecção do bolo. Só que as coisas são muito diferentes. Bibi está cansada e doente e já não consegue cuidar da neta, por isso, vai entregá-la a uma senho
O Pátio das Antigas: Xarope de Rosas e Pó da Viscondessa, só na Farmácia Durão

O Pátio das Antigas: Xarope de Rosas e Pó da Viscondessa, só na Farmácia Durão

Entre os muitos remédios e produtos para a saúde insólitos e curiosos que ao longo dos anos se venderam na Farmácia Durão, um dos endereços históricos da Baixa lisboeta, situada na Rua Garrett desde tempos idos, contavam-se, por exemplo, o Xarope de Rosas Rubras (julgamos que contra a tosse), os Pós da Viscondessa, destinados à limpeza e ao branqueamento dos dentes, o Elixir Balsâmico do Dr. Ernesto (idem, idem), as Pastilhas Genesicas, que actuavam “contra o enfraquecimento dos órgãos sexuais” e prometiam o “regresso à mocidade” neste particular aspecto, ou ainda a Laranjada Purgante, de utilização óbvia. E não faltavam os célebres produtos do Dr. Scholl, como é o caso dos Zino-pads contra os calos. Se não é a mais antiga, a Farmácia Durão é decerto uma das mais antigas da capital, tendo passado pelas mãos de vários proprietários ao longo dos séculos. Segundo o blogue Restos de Colecção, esta casa “remontará ao século XVIII, altura em que o farmacêutico do Rei D. João V (1707-1750), João Gomes da Silveira, estabeleceu uma botica na loja, provavelmente onde esta farmácia esteve sempre instalada, na então Rua das Portas de Santa Catharina, 17, em Lisboa, actual Rua Garrett 90 e 92”. Nos anos 50 do século passado, começou também a vender artigos de perfumaria. A Farmácia Durão permanece no mesmo endereço e chama-se, desde 2012, Farmácia Sacoor do Chiado. Coisas e loisas de outras eras + Quarteto, uma aventura que começou há 50 anos + Os gloriosos pilotos do Circuito de Monsanto
‘Vida Privada’: Jodie Foster investiga um crime em Paris

‘Vida Privada’: Jodie Foster investiga um crime em Paris

Jodie Foster tem uma relação de longa data com o cinema francês, mais precisamente desde 1977, quando ainda era nova – tinha só 15 anos – e entrou numa comédia romântica (justamente esquecida), Não Me Chames Miúda!, de Eric Le Hung, fazendo de filha de Sydne Rome e contracenando ainda com Jean Yanne e com um também jovem Bernard Giraudeau. Muitos anos mais tarde, em 2004, Foster apareceu em Um Longo Domingo de Noivado, de Jean-Pierre Jeunet. E agora é a principal intérprete de Vida Privada, de Rebecca Zlotowski, falando mais uma vez o francês impecável aprendido como aluna (e brilhante) do Liceu Francês de Los Angeles, que frequentou durante todo o ensino secundário, ao mesmo tempo que era já actriz.  O papel que aqui assume, e que foi escrito “para ela, e só para ela”, como Zlotowski tem dito em várias entrevistas, é o de Lilian Steiner, uma psiquiatra americana que vive e trabalha em Paris. Ela está divorciada de um oftalmologista, Gabriel (Daniel Auteuil), do qual tem um filho, Julien (Vincent Lacoste), que já lhe deu um neto, ainda pequenino, e com quem não se dá lá muito bem. A rotina clínica de Lilian é, de repente, perturbada por dois acontecimentos. Primeiro, um antigo paciente comunica-lhe que a processou porque apesar de ter gasto milhares de euros em sessões com ela, não sentiu qualquer melhora no seu estado mental e emocional, e quer o dinheiro de volta; e depois, e muito mais trágico, Paula Cohen-Solal (Virginie Efira), uma das suas pacientes, suicida-se inespera
‘Avatar: Fogo e Cinzas’: uma nova ameaça no planeta Pandora

‘Avatar: Fogo e Cinzas’: uma nova ameaça no planeta Pandora

James Cameron não faz a coisa por menos. Depois do seu Titanic (1997) se ter tornado no filme mais rentável de todos os tempos e batido o recorde de Óscares ganhos, com 11 (empatado com Ben-Hur, realizado por William Wyler em 1959), voltou a bater um recorde com a ficção científica Avatar (2009), que se tornou no novo filme mais lucrativo de sempre, com 2,9 mil milhões de dólares de receitas. Mas Cameron não queria ficar-se só por um filme. Avatar é uma saga de cinco títulos, passada no planeta Pandora, situado em Alfa do Centauro, habitado pela espécie humanóide dos Na’avi, que reagem à chegada de humanos que vêm explorar um raro e precioso mineral. A sua presença ameaça o equilíbrio ecológico e a própria existência dos Na’avi. A fita ganhou três Óscares. Em 2022, James Cameron estreou o segundo filme desta epopeia interplanetária, Avatar: O Reino da Água (vencedor de um Óscar), que funciona também como um laboratório de tecnologia e de efeitos especiais, como o grafismo computacional em 3D ou as técnicas de motion capture. O realizador faz também questão de estrear o filme em vários formatos: tradicional, 3D (dividido em RealD 3D, Dolby 3D, XpanD 3D e IMAX 3D) e também 4D, este em cinemas muito seleccionados. Segundo Cameron, as quatro continuações do Avatar original são “extensões naturais de todos os temas, das personagens, e das implicações espirituais daquele”. Ao mesmo tempo que vão desenvolvendo novas tecnologias cinematográficas, bem como acumulando lucros astronómic
O Pátio das Antigas: Quarteto, uma aventura que começou há 50 anos

O Pátio das Antigas: Quarteto, uma aventura que começou há 50 anos

No dia 21 de Novembro de 1975, fez há dias meio século, Pedro Bandeira Freire inaugurou na Rua Flores do Lima, em Lisboa, o Cinema Quarteto, inspirado nos complexos de salas que tinha visto em Paris. “Quatro salas, quatro filmes” era o lema do novo cinema, o primeiro multiplex lisboeta (e nacional), e a intenção era mostrar o melhor cinema que se fazia então, com ênfase nos filmes ditos de “autor” de todas as paragens, nos independentes americanos e ainda na reposição de clássicos; e divulgar cineastas que nunca tinham tido obras estreadas em Portugal, devido à Censura do antigo regime ou a opções de distribuição. O sucesso foi instantâneo e o Quarteto tornou-se também conhecido entre os cinéfilos pelas muitas e variadíssimas iniciativas. As meias-noites duplas das sextas-feiras, as maratonas de 24 horas nos dias de anos, as secções vindas do Festival de Cannes, os filmes de festivais portugueses, os ciclos temáticos, o acolhimento da Cinemateca durante um ano, após o incêndio que a destruiu em 1981, e até o teatro. O aparecimento de novos multiplexes, das Amoreiras aos King Triplex, a lenta degradação das salas e o estado de saúde de Pedro Bandeira Freire levaram a que este entregasse, em 1999, a exploração do cinema a outros. O Quarteto fecharia em Novembro de 2007, por falta de condições de segurança. Mas as muitas e boas recordações que deixou não morrem. Coisas e loisas de outras eras + Os gloriosos pilotos do Circuito de Monsanto + Promotora, um cinema numa instituição
“Zootrópolis 2”: a Disney volta à cidade dos animais

“Zootrópolis 2”: a Disney volta à cidade dos animais

Mais de um milhar de milhões de dólares. Estes foram, em 2016, os lucros a nível mundial da animação de longa-metragem Zootrópolis, da Walt Disney, passada na grande metrópole com o mesmo nome e habitada exclusivamente por animais antropomorfizados, e que tem como heróis uma dupla improvável: Bunny Hopps, uma coelha que se torna na primeira agente da polícia de Zootrópolis, e Nick Wilde, um raposo vigarista, que se juntam para investigar um caso que envolve o misterioso desaparecimento de uma série de predadores. Realizado por Byron Howard e Rich Moore, o filme é a expressão mais acabada de uma das coisas que os Estúdios Disney fazem melhor em termos de animação: histórias com animais, humanizados em menor ou em maior grau. E qual cereja no topo do bolo do sucesso, Zootrópolis ganhou o Óscar de Melhor Animação de Longa-Metragem em 2017. Nesse mesmo ano de 2016, a Disney estreou outra fita de animação de longa-metragem que foi mais um triunfo de crítica e de bilheteira, Vaiana, de Ron Clements, John Musker e Don Hall. Mas os anos seguintes foram negros para a animação dos Estúdios Walt Disney. Foi como se a criatividade, a imaginação e a capacidade de conceber histórias que fossem ao encontro do gosto do grande público tivessem sido quase totalmente drenadas. Com a excepção de Frozen II: O Reino do Gelo, continuação do filme original, em 2019, a Disney começou a alinhar fracasso atrás de fracasso, vivendo um dos períodos mais claramente desinspirados e medíocres da sua históri
‘Anjo da Sorte’: Keanu Reeves desce dos céus

‘Anjo da Sorte’: Keanu Reeves desce dos céus

No filme de culto Constantine, de Francis Lawrence (2005), Keanu Reeves interpreta um detective que tem que enfrentar demónios que querem entrar no nosso mundo. Em Anjo da Sorte, uma comédia fantástica que marca a estreia a realizar de Aziz Ansari, também autor do argumento e intérprete, e se passa em Los Angeles, Reeves está desta vez do lado sobrenatural, personificando Gabriel, um anjo que ajuda humanos. Só que, segundo o filme nos mostra, há uma hierarquia muito rigorosa e exigente entre os anjos da guarda, e Gabriel encontra-se mesmo no nível mais baixo dela. Basta olhar para as suas asas pequeninas, que não permitem que voe, para percebermos isso. Abaixo disto, só mesmo os anjos estagiários. Gabriel tem funções consentâneas com a sua posição na cadeia hierárquica angélica. Que se limitam a estar instalado no assento de trás dos automóveis e impedir que pessoas que enviam mensagens no telemóvel, enquanto estão ao volante, tenham acidentes. Só que Gabriel tem ambições e quer fazer coisas mais importantes, como o seu colega Azrael, que salva almas e tem um enorme par de asas. Um dia, Gabriel impede que Arj (Aziz Ansari), um pobre diabo que quer ser documentarista, faz vários biscates para sobreviver e vive no carro, se estampe quando estava a conduzir e a teclar no telemóvel. Arj desperta o seu interesse e por isso Gabriel passa a segui-lo. Arj começa então a trabalhar como assistente para Jeff (Seth Rogen), um rico e expansivo investidor que esbanja dinheiro com a natural
‘Foi Só um Acidente’: do Irão, com dor e revolta

‘Foi Só um Acidente’: do Irão, com dor e revolta

O novo filme do iraniano Jafar Panahi, Foi Só um Acidente, ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cannes, o que o tornou num dos poucos realizadores a ter vencido os três mais importantes festivais de cinema do mundo, Berlim, Veneza e Cannes, juntando-se assim a Robert Altman, Michelangelo Antonioni e Henri-Georges Clouzot. Por ter produção francesa, a fita vai representar a França na candidatura à selecção do Óscar de Melhor Filme Internacional. Depois de ter estado preso entre 2022 e 2023, Panahi viu recentemente o governo iraniano levantar a proibição de rodar filmes (embora nunca tenha deixado de os fazer, clandestinamente) e de viajar, mas disse numa entrevista antes da estreia mundial de Foi Só um Acidente em Cannes, que continuava a trabalhar em segredo e com “uma equipa e um elenco muito reduzidos”. Foi Só um Acidente apresenta-se como o filme mais explícito, mais “militante” e mais indignado de Jafar Panahi contra a teocracia que governa o Irão, e ao derrube da qual, inclusivamente, o realizador de O Círculo, Táxi e Aqui Não Há Ursos apelou, durante o Festival de Cannes. Rodado com um elenco quase totalmente composto por actores não-profissionais, o filme centra-se em Vahid, um mecânico que julga reconhecer, num homem que atropelou um cão quando seguia de carro com a família e vem à sua garagem pedir para reparar o veículo, Eqbahl, o seu torcionário da altura em que esteve preso, e que o deixou em sofrimento físico permanente. O ranger da perna postiça do homem, um so
O Pátio das Antigas: Os gloriosos pilotos do Circuito de Monsanto

O Pátio das Antigas: Os gloriosos pilotos do Circuito de Monsanto

Juan Manuel Fangio, Stirling Moss, Phil Hill, Dan Gurney, Jack Brabham ou Maurice Trintignant. Estes foram alguns dos nomes lendários do automobilismo mundial que, entre 1953 e 1961, competiram no Circuito de Monsanto, em Fórmula 1 e noutras categorias, ao volante de carros de marcas como a Ferrari, a Lancia, a Jaguar, a Maserati ou a Cooper-Climax. E foi também em Monsanto que se estreou na Fórmula 1 o português Mário “Nicha” de Araújo Cabral, em 1959. Foi para celebrar os seus 50 anos que o Automóvel Club de Portugal se propôs criar um circuito de nível mundial em Lisboa, inaugurado a 25 de Julho de 1953, com a colaboração plena das autoridades municipais e governamentais. O traçado da pista tinha 5425 metros de extensão e aproveitava os arruamentos do Parque Florestal de Monsanto, que proporcionava também um magnífico enquadramento natural. Em 1959, o Circuito de Monsanto acolheu o segundo Grande Prémio de Portugal de Fórmula 1 (o primeiro correu-se no ano anterior, no Circuito da Boavista, no Porto), tendo a vitória cabido a Stirling Moss, ao volante do seu Cooper-Climax. Em 1962, houve várias alterações na pista, que ficou reduzida a metade, e a prova passou a chamar-se Circuito de Montes Claros. Até que o Autódromo do Estoril, inaugurado em 1972, acabou com o bonito e popular circuito de Lisboa. E foi ao Estoril que a Fórmula 1 regressou, em 1984. Coisas e loisas de outras eras + Promotora, um cinema numa instituição social + Precisa de óculos? Vá ao Rodrigues Oculista
‘Springsteen: Deliver Me From Nowhere’: a história íntima de um álbum

‘Springsteen: Deliver Me From Nowhere’: a história íntima de um álbum

Em 1980, Bruce Springsteen tinha já gravado cinco discos, o último dos quais, The River, saído nesse mesmo ano, tinha sido o primeiro a atingir a tabela dos 200 álbuns mais vendidos da revista Billboard. A editora de Springsteen, a Columbia, entusiasmada com as vendas de The River, com o sucesso dos concertos da respectiva digressão, e com a crescente popularidade do músico nos EUA e internacionalmente (neste caso, desde o terceiro disco, Born to Run, de 1975), queria que ele se pusesse a trabalhar num novo álbum o mais depressa possível. Mas Springsteen tinha outras ideias. Especificamente, um álbum a contracorrente dos que tinha feito até aí. E que sairia apenas em 1982, intitulado Nebraska.  Em 2023, Warren Zanes, crítico de música, professor e autor, entre outros, de livros sobre Tom Petty e Dusty Springfield, publicou Springsteen: Deliver Me From Nowhere, em que conta a história pouco conhecida da criação de Nebraska, o atípico disco de Bruce Springsteen, que o gravou sozinho, no quarto de uma casa de campo isolada de um rancho, que havia alugado em Colts Neck, no seu estado de Nova Jérsia, usando material de gravação básico, com a presença apenas, para apoio técnico, do seu engenheiro de som, Mike Batlan. É um álbum totalmente acústico, em que Springsteen toca todos os instrumentos, e cujas dez canções, bem como a sua identidade sonora e lírica, despojada, melancólica e sombria, são fruto de várias influências. Estas vão desde filmes como Noivos Sangrentos, de Terrence